segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Cernunnos - O Deus das Feiticeiras

Hoje se celebra o "Dia das Bruxas" e muitos comemoram esta data de forma bastante fantasiosa, misturando as feiticeiras aos monstros das histórias fantásticas, fantasmas, vampiros e demônios assustadores. Mas a grande maioria desconhece as origens desta miscelânea e muitos se perguntam se a chamadas "bruxas" acreditam em deus ou cultuam mesmo o diabo. Bem, esta é um postagem para esclarecer alguns mitos em relação as deidades das feiticeiras.
Primeiramente é preciso dizer que a bruxaria é algo complexo, que não se anula em um único texto, pois há vários períodos históricos, locais diversos e muitas religiões e práticas pagãs que foram colocadas todas em um mesmo caldeirão onde o culto foi denominado "bruxaria" e "feitiçaria".
A veneração às divindades chifrudas existe deste tempos remotos que antecedem, e muito, ao cristianismo. Babilônicos, egípcios, gregos, entre outros povos indo-europeus, já viam nos chifres uma beleza que impunha realeza e majestade, além de ser um símbolo masculino pois, em muitas das espécies de mamíferos, os machos têm os chifres maiores que as fêmeas e quanto maior o chifre mais imponente o animal se torna.
De acordo com a escritora Margaret Murray em seu livro "O Deus das Feiticeiras", publicado em 1933 ("The God of The Witches"), quando Roma começou a expandir o seu Império e a registrar os costumes pagãos, chamaram de "Cernunnos" o deus cultuado na Gália (atual França) cujo nome significa "aquele que tem chifres". Ainda de acordo com a doutora Murray, o que tinha valor na Gália também valia para as Ilhas Britânicas e, conforme citam alguma fontes eclesiásticas, o culto ao deus chifrudo era muito comum na Bretanha medieval, assim como vestir-se como um animal selvagem usando chifres (parte de rituais pagãos). O que era abominável e demoníaco segundo a Igreja.
O nome Cernunnos aparece no Piliers des Nautes, um bloco de pedra que data do primeiro século d.c que pertenceu a um templo gallo-romano da antiga cidade de Lutetia (atual París). Nela está escrito com letras romanas "Cernvnnos" acima da imagem do deus chifrudo. Algo interessante é que este bloco foi encontrado nas fundações da Catedral de Notre Dame em 1770. 
O chifrudo seria, portanto, o deus celta das feiticeiras, embora não seja o único já que os celtas eram politeístas. Portanto, não existia um único Deus, mas Cernunnos representava a natureza masculina e a fertilidade em sua essência,  numa deidade meio homem meio animal e de aparência selvagem.
Mas, por que o "Deus das Feiticeiras? A resposta é: por assimilação ao diabo.




Ele é o Diabo?

Definitivamente não, mas para os cristãos era o mais próximo que se chegava de um e, como as feiticeiras eram, para a Igreja, "adoradoras do demônio" ele era uma representação perfeita do líder de todos os anjos caídos. Por ser um deus selvagem, sexual, sem pudores (como os animais) e que vive na Terra, ele se enquadrou exatamente no estereótipo buscado por aqueles que acreditavam na existência de um diabo. Contudo, as denominadas bruxas jamais acreditaram neste ser maligno que os cristãos tomaram como o opositor de Deus.
O Diabo Medieval
Mas a figura do diabo como é vista em nossos dias não é tão antiga quanto o personagem que até hoje é mais temido do que o próprio Deus cristão. Foi somente na idade média que este anjo mau adquiriu chifres, garras, rabo e asas, primeiramente numa associação ao deus Pan que muitos julgavam ser o autor dos males que assolavam a sociedade antiga,  foi também nesta época que a associação dele ao sexo se tornou mais frequente. Diziam que ele era capaz de se materializar, seduzir e corromper as mulheres e que ele as usava com mais facilidade, pois a mulher era mais propensa ao pecado do que o homem,  sendo através de uma mulher (Eva) que o mal entrou no mundo.
Esta ideia se manteve até Renascimento, mas figura de Satanás após este período foi deixando de ser bestial e feia e ele passou a ser retratado de modo mais humano e atraente. E quanto mais atraente se tornava, mais sedutor e corrupto, e diante da "caça as bruxas" seria necessário uma justificativa para condena-las. Portanto, o diabo chifrudo se tornou o adorado das bruxas e a divindade celta que mais se assemelhava a ele era Cernunnos.
Muitos devem se perguntar: por quê o celta e não o romano, ou grego? Por um motivo muito simples: os celtas, tanto da Gália quanto da Bretanha, foram os que mais resistiram ao Império Romano e também a nova doutrina. Tal resistência manteve vivo muitos dos cultos pagãos nas comunidades do Oeste Europeu e principalmente das Ilhas Britânicas.
E assim, uma divindade ligada à fertilidade e a natureza se tornou um malévolo ser de origem cristã, e uma deidade pagã se transformou num "verdadeiro" deus das feiticeiras.



3 comentários:

Henrique Requena disse...

Muito legal o texto, Hugo.

Lilly Rose disse...

Olá Hugo,
Adorei seu blog, e vou aprender muito por aqui!
Seu post está perfeito e muito bem explicado.
Os celtas realmente lutaram para não serem sucumbidos pelo Cristianismo. São as transformações da História, que por vezes apagam civilizações inteiras. Felizmente hoje, culturas como a Celta, sua Divindade Tríplice, voltam a nosso conhecimento. Há muito que aprendermos com as tradições pré-cristãs. Adorei os temas, virei mais vezes aqui!
Abraços,
Lilly Rose

Carlos disse...

Hugo, sou leitor assíduo do seu blog. Por favor, não pare de postar! Abraços!

Postar um comentário